Consumo é a utilização, aplicação, uso ou gasto de um bem ou serviço por um indivíduo ou uma empresa. Sustentável significa aquilo que se pode sustentar, nesse caso, por si só. Ignorando eventuais discussões estéreis acerca da precisão do termo, temos que consumo sustentável nada mais é que a utilização dos recursos naturais pelo ser humano de forma a satisfazer as suas necessidades, sem comprometer a qualidade de vida das gerações futuras. Menos que isso é incompleto, mais que isso é desnecessário: consumir de forma sustentável é adquirir apenas aquilo de que se precisa, é utilizar-se apenas do necessário, é extinguir apenas o inevitável. É consumir conscientemente.
Apesar de toda a carga de normalidade acumulada de geração em geração do consumo pelo consumo, do apetite insaciável e desenfreado por bens consumíveis cada vez mais descartáveis e subutilizados, o raciocínio é bastante simples e fácil de construir.
Alguém é capaz de afirmar que é realmente necessário adquirir um novo aparelho telefônico celular a cada seis meses? Há como sustentar que é necessário ter vinte pares de sapatos guardados em casa? É imprescindível acender as luzes em todo e qualquer ambiente a qualquer hora do dia? Dá tanto trabalho assim separar os restos de comida do papel, da lata, do vidro, do plástico? O bom senso pode tranqüilamente responder a estas questões, com razoável dose de certeza, de forma idêntica em cada um de nós. Mas por quê então não nos ajudamos?
O antropologista Maurício Waldman afirma que não há nada de irrefutável na idéia de que o homem é o principal ator na destruição do meio-ambiente. E acrescenta que é assim porque, a começar pela terminologia, a abordagem está equivocada. Há uma carga ideológica, mística, presente na mente de todo ser humano de que o culpado pela degradação ambiental é o “homem”, esse ser abstrato, genérico, como o qual não nos identificamos de pronto.
Este “homem detestável”, fruto da imaginação da mente humana entorpecida pelas facilidades do capitalismo e mergulhada na relação de poder que o consumo mantém com a sociedade, jamais é associado ao amigo, ao colega de trabalho, ao pai, ao irmão, à própria pessoa que o imagina. O fato é que embora envolto numa imagem nebulosa, feito ser etéreo sem correspondência na realidade, esta interessante entidade significa, na verdade, cada um de nós.
O homem que opera uma moto-serra é mais ou menos culpado que o chefe que o ordena usa-la todos os dias? E as lojas que compram os móveis construídos com essa madeira? E os consumidores dessa madeira? Quem começou? Quem é “pior”?
A verdade é que o comportamento do indivíduo é determinado por suas circunstâncias e isso nos torna mais e menos culpados ao mesmo tempo.
Muzafer Sherif, Hannah Arendt, Stanley Milgram, Philip Zimbardo e tantos outros estudiosos já provaram que o ser humano, quando inserido num grupo, raramente resiste à pressão dos companheiros em detrimento de suas idéias ou valores, assumindo posições que beiram a irracionalidade, ignorando limites de educação, ética ou moral quando há condições ambientais e sociais para isso. Em outras palavras, se o grupo segue uma tendência, geralmente seus indivíduos não hesitarão em executá-la nos mesmos moldes da maioria, ainda que esse comportamento não lhe pareça aceitável quando age sozinho.
Hoje, é unânime que o homem sofre com as péssimas condições de seu meio. A dignidade do ser humano começa a ser nitidamente abalada pela degradação ambiental marcante e contínua que mitiga a qualidade de vida do homem, extermina plantas e animais, afronta a vida de forma ampla e irrestrita e carrega nas tintas de um cenário catastrófico e desesperador para a sociedade do futuro.
O homem, ator principal da destruição do meio-ambiente como o conhecemos, é ao mesmo tempo carrasco e mensageiro da esperança. Consome vorazmente, individualmente, em grupo, em casa, no trabalho, na escola e na diversão. Mas pode mudar isso.
Da relação entre produção e consumo, sabe-se que o fruto mais perverso é o esgotamento progressivo dos recursos naturais frente ao consumo voraz e desmedido, tornando urgente e inadiável a necessidade de se discutir o tema consumo sustentável de forma ampla, franca e direta. Sem mistificação, sem demagogia.
É justo, no entanto, que se apresente uma explicação para o fato de não nos importarmos tanto quanto o meio-ambiente merece. E ela é bastante simples: podemos dividir a culpa com nossos amigos, nossos colegas de trabalho, nossa família, toda a sociedade. Esse comportamento aparentemente infantil reflete, em verdade, que não há um nível real de conscientização da sociedade, apenas uma discussão conhecida e desgastada, sem a profundidade nem o apelo necessários.
Todos os dias assistimos à intensa publicação de pesquisas com os mais variados resultados nas mais diferentes frentes de estudo, com resultados díspares e inconclusivos. Afinal, a sociedade está ou não se conscientizando da problemática ambiental relacionada ao consumo consciente? Infelizmente, a resposta é que se isso está realmente acontecendo, o processo é lento e por vezes insignificante.
Pesquisas com a da Fundação PROCON-SP mostram claramente que a pseudo-conscientização da população está mais relacionada a fatores sociais do que a convicções íntimas. Por meio de questionamentos simples e diretos, a população respondeu via internet acerca de seus hábitos de consumo em geral e o resultado era mais do que o esperado: ótimos resultados nas questões relacionadas a água e energia elétrica e um quadro preocupante de falta de interesse na reciclagem, na escolha de produtos ambientalmente corretos dentre outros assuntos que os consumidores até mesmo desconheciam.
Sem rodeios, a aparente preocupação com o consumo de água e energia elétrica se traduz, na verdade, na realidade econômica do brasileiro. O fato é que tanto água quanto eletricidade têm seu consumo medido e cobrado todos os meses, motivo que nos leva a economizá-las tanto quanto faríamos com qualquer outra compra. Em outras palavras, se houvesse liquidações ou queimas-de-estoque de água e energia, certamente os consumidores adquiririam generosas porções de ambos os recursos, ainda que necessitassem realmente de uma quantidade menor.
Prova disso é a efetividade do rodízio de veículos no Município de São Paulo, criado na tentativa de retirar parte dos veículos de circulação com vistas a diminuir a poluição que causam. Infelizmente, é fato que tal rodízio só é efetivo nas famílias que não possuem mais de um automóvel. Se houver um segundo, este certamente foi emplacado com numeração diferente, para propiciar o deslocamento no dia em que o outro veículo é impedido de rodar sob pena de multa. Novamente o fator econômico é determinante e o meio ambiente é o mais prejudicado.
No mesmo sentido, escolher produtos fabricados por empresas ambientalmente corretas não é nem de longe um comportamento freqüente na população brasileira, já que a prática não gera qualquer economia direta no orçamento doméstico, pelo contrário, normalmente encarece as compras. Daí também o total desprezo pelo descarte adequado dos resíduos sólidos, reciclagem de baterias, da discussão sobre alimentos transgênicos etc.
Não se trata de pregar a voz da razão, com dedo em riste para a sociedade. Pelo contrário, o movimento automatizado do consumidor, a ânsia de comprar, de adquirir e de descartar não são um preço obrigatório que se deve pagar pelo progresso e nem são fruto da ignorância ou da preguiça de determinados grupos sociais.
Ouve-se comumente em palestras, congressos e cursos da área que se todos os habitantes da Terra passassem a consumir nos níveis dos países ricos, seriam necessários quatro planetas para suprir a demanda. Ao mesmo tempo, entretanto, esses mesmos eventos descartam toneladas de papel, milhares de copos plásticos descartáveis e centenas de sacos plásticos que poderiam ser substituídos por alternativas mais inteligentes e ambientalmente corretas. Fala-se muito no “homem” mas se pratica muito pouco como se não o representássemos.
A abordagem genérica da questão é tão culpada quando esta característica inerente do homem de se comportar em grupo de forma similar a seus companheiros e só agrava a questão. Se o homem já tende a gastar cada vez mais, a consumir de forma cada vez mais voraz e inconsciente, tratar o problema de forma genérica e travestida de moralismo não ajuda em absolutamente nada.
Diante disso, é fácil verificar que culpados existem aos montes e em todos os campos , por isso é necessário aprofundar a questão e modificar a abordagem que deve ser uma só: cada um deve analisar sua própria rotina diária e fazer o possível para mudá-la, num exercício constante de aprendizagem e auto-conhecimento, práticas fundamentais para trazer um pouco de efetividade a campanha ambiental em prol do consumo consciente.
O quadro é simples. Ou ajudamos a construir um mundo novo em que os limites naturais sejam respeitados ou caminhamos de vez para o suicídio coletivo. Um exemplo bem próximo é a Cidade de São Paulo, município mais rico do país, propagado como centro econômico pulsante brasileiro, terra de “progresso e atualidade”.
Segundo dados da Abrelpe – Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Urbana – os paulistanos jogaram fora 3,3 milhões de toneladas de lixo só em 2006, cerca de 10% da coleta domiciliar de todo o país. Somado ao lixo industrial e ao entulho, rompe-se a barreira de 5 toneladas de lixo, o suficiente para encher um Estádio do Pacaembú inteiro, todos os dias. Segundo a Limpurb, empresa responsável pela coleta de lixo na capital paulista, apenas 1% (um por cento) desse lixo é reciclado.
Ainda usando a metrópole de exemplo, os estudos da Abrelpe também indicam que a produção de lixo cresce incríveis 7% (sete por cento) ano, causando um problema de proporções monumentais. Os dois últimos aterros sanitários da metrópole já excederam sua capacidade há muito tempo. O conhecido aterro Bandeirante já tem uma montanha de lixo de mais de 140 (cento e quarenta) metros de altura. No aterro São João a situação é ainda pior: o acúmulo de lixo e o descaso das autoridades foi tão grande que a montanha de lixo desmoronou, invadindo a reserva ambiental vizinha.
E enquanto o tempo passa, a situação vai se complicando. Uma atualização inédita das informações sobre os aterros de lixo da cidade de São Paulo foi publicada recentemente por um geógrafo da Universidade de São Paulo - Otávio Cabrera de Léo - e mostra que São Paulo possui cinco aterros potencialmente poluidores que, mesmo desativados há pelo menos 20 (vinte) anos, ainda produzem chorume e metano em quantidade suficiente para contaminar as regiões do entorno.
E a falta de espaço para o lixo não é o maior dos problemas. Hoje, metade da população mundial enfrenta o problema do desabastecimento da água. Uma quantidade imensa de fontes de água doce está drasticamente comprometida ou poluída. Em outras palavras, com nosso consumo desenfreado nós atuamos de todas as formas para que atinjamos o suicídio coletivo cada vez mais rapidamente.
Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, 97% (noventa e sete por cento) da água existente no planeta Terra é salgada, 2% (dois por cento) formam geleiras e apenas 1% (um por cento) é água doce, armazenada em lençóis subterrâneos, rios e lagos. E apenas esta última quantidade é distribuída para todo o planeta, atendendo mais de 6 (seis) bilhões de pessoas. E essa pequena porção se vê seriamente ameaçada por esgoto não tratado, lixo contaminado e mal acondicionado, além de resíduos de agrotóxicos e remédios presentes em demasia nos alimentos e na água.
No Brasil, a cidade de Recife, capital do Estado de Pernambuco, é submetida a rigorosos racionamentos de água todos os anos. Freqüentemente o racionamento é suspenso não porque a água voltou ao nível normal, mas porque simplesmente acabou. Segundo dados da Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRH), vivemos o pior índice de chuvas dos últimos 70 anos, com a maior parte das barragens operando com apenas 20% (vinte por centos) de sua capacidade. Assim como em Recife, em muitas cidades do interior da Paraíba e do Ceará não tem chovido o suficiente, mas Rio de Janeiro e São Paulo têm mostrado números tão preocupantes nos últimos anos que já os colocam na lista dos Estados mais problemáticos.
Em São Paulo, as agradáveis cidades turísticas do interior paulista de Cotia e Embú já sofrem racionamento de água há alguns anos. Notícias como a dos alunos das escolas municipais de Santa Cruz das Palmeiras, na região de Ribeirão Preto, que tiveram seu número de aulas diminuído por causa da longa estiagem e do racionamento de água na cidade este ano são cada vez mais freqüentes. O chão não é mais lavado, apenas varrido. Até a dieta das pessoas mudou, visando sujar o menos possível de louça, que assim evita de ser lavada.
Além da educação, da alimentação e dos hábitos em geral, a diversão também é afetada. Já há vários anos o morador da Baixada Santista, o mais popular reduto de veranistas do Estado de São Paulo, sofre durante os feriados porque o crescente número de turistas já torna insuficiente a quantidade de água que os mananciais podem prover. É o consumo desenfreado fechando seu ciclo e afetando, por fim, o próprio consumo.
No momento em que este artigo é escrito, a represa Guarapiranga, na zona sul da capital paulista, que abastece 3,8 milhões de pessoas, está com apenas 37,5% da sua capacidade, o que já assusta os moradores que dependem da represa para o lazer e também para o abastecimento. Em relação a 2006, a represa tem 21% (vinte e um porcento ) a menos de água. O nível dos outros mananciais que abastecem a Grande São Paulo também preocupa, como é o caso do Sistema Cantareira, que atende 8 milhões de pessoas e só tem água em pouco mais de 33% (trinta e três por cento) de seu reservatório. E ainda estamos em novembro, época em que a maior parte dos veranistas e o calor mais intenso ainda não chegaram.
A culpa é de quem? Do aquecimento global? Não, a culpa é de todos nós, que consumimos demais. O consumo exagerado provoca aumento de produção, que provoca aumento de poluição, que provoca aumento no volume do lixo, que provoca aumento no consumo de água, que por sua vez provoca a falta d´água. E sem água, não há vida.
Sabe-se que um número cada vez maior de cidadãos em todo o mundo começa a incorporar como valor a preservação ambiental, exigindo que se obrigue ao desenvolvimento de processos industriais menos poluentes, uso de energia limpa e utilização racional de recursos naturais na fabricação de produtos, levando a uma nova realidade em que as mesmas necessidades sejam supridas de forma mais sustentável. Mas também é fato que ao mesmo tempo em que se protesta, o estilo de vida pouco muda.
O fato é que não adianta buscarmos culpar empresas por seus métodos visando o lucro acima de tudo, porque este é o mote de uma empresa, sua própria razão de existir. Enquanto a discussão residir num campo estéril como esse, lutando contra a própria essência das coisas, pouco se avançará na questão.
Nesse ritmo, enquanto a população não começa a mudar seus hábitos de consumo, enquanto não passar a adquirir apenas o necessário, enquanto não passar a reciclar, reutilizar, escolher marcas e empresas por critérios de responsabilidade social, de sustentabilidade, de racionalidade, caminhamos para um futuro negro e desesperançoso.
Não há mais dúvida que o governo deve assumir papel preponderante na luta contra o consumo irracional. Há uma série de ações extremamente simples, de baixo custo e alta eficácia que estão à disposição de todos os administradores públicos, inclusive em países emergentes.
Já é de conhecimento do mundo científico há muito tempo que existem em nosso país equipamentos e sistemas hidrossanitários de última geração, que permitem o uso racional da água, com economia de mais de 60% (sessenta por cento) em relação aos equipamentos atuais, por exemplo.
O governo brasileiro acena para um futuro melhor com algumas iniciativas como por exemplo obrigando fabricantes de bacias sanitárias a incluírem nos produtos dispositivos que diminuam o consumo de água de forma drástica, de 20 (vinte) para cerca de 8 (oito) litros o consumo de água por descarga. Mas muito mais pode se feito incluindo dispositivos semelhantes em torneiras, filtros, chuveiros etc. Esta é uma forma de atacar o problema, sem contar com a participação do consumidor. Mas se este for induzido, os resultados podem ser bem melhores.
Mais e melhor tratamento de esgoto devem ocupar mais espaço na pauta do governo brasileiro. Apenas metade do esgoto é devidamente coletado no país e menos de um quarto é devidamente tratado. Metais pesados, remédios, agrotóxicos e outras substâncias tóxicas vão direto para a terra, sem qualquer tipo de tratamento, possibilitando a contaminação dos já escassos mananciais. Enquanto os resultados do governo na área ainda são tímidos, poucos percebem que se o consumo consciente for estimulado todos esses poluentes serão lançados em quantidades significativamente menores, freando a poluição enquanto o governo ganha tempo para enfrentar o problema com mais estrutura.
Racionalização do consumo da água também deve ser prioridade. As campanhas publicitárias são tímidas, pouco freqüentes e praticamente não geram impacto na população. Nesse sentido, a inclusão da disciplina de educação ambiental no currículo básico da escola fundamental é urgente e necessária, para fomentar cidadãos mais preocupados e informados acerca da situação de calamidade que vivemos no que diz respeito ao alto consumo de água, que não é ligada apenas a questão de seu uso direto de maneira racional, mas ao consumo de maneira geral. E é esse um dos pontos mais importantes a serem abordados.
Poucos se dão conta, mas a fabricação de qualquer produto e o cultivo de qualquer alimento geram “custo hídrico”, ou seja, há consumo de água no processo. O consumo exagerado de alimentos aliado a expansão demográfica, exercem uma pressão social e econômica crescente para a ampliação das áreas voltadas para sua produção. Por isso, cresce em todo o mundo a irrigação, cuja difusão é acompanhada pela requisição de vastos volumes de água. Paralelamente, se alastram os desmatamentos, em larga medida afetando regiões arborizadas e abrindo espaço para o surgimento de campos artificiais voltados para a produção de carne, especialmente da bovina.
Se o governo incentivasse o cultivo e o consumo de produtos cujo custo hídrico fosse menor, os impactos seriam minimizados. Ao contrário, vemos surgir cada vez mais alternativas bem intencionadas como a produção de álcool e biodiesel em larga escala, cujos estudos não são conclusivos acerca do benefício que a questão traria, eis que se estaria deixando de poluir a atmosfera em detrimento do consumo de água.
O governo, por outro lado, temeroso por atuações impopulares, lança campanhas de desconto no valor da conta mensal de consumo de água para os que conseguem diminuir sua média de consumo, mas assim que a seca acaba e a água volta a jorrar essas campanhas são canceladas. A população entende que está tudo bem e volta a limpar a calçada com água de mangueira no dia seguinte.
Medidas impopulares, infelizmente, precisam ser tomadas para que questões absolutamente vitais ligadas ao consumo desenfreado de produtos e alimentos comecem a ser resolvidas. Uma delas, praticamente desconhecida da sociedade, é a questão do consumo da carne, sobretudo no Brasil.
Dados da TAPS - Temas Atuais na Promoção da Saúde - mostram que a indústria de carne é uma das maiores responsáveis pela poluição da água. Somente os animais criados para o consumo humano nos Estados Unidos produziriam uma quantidade de excrementos 130 vezes maior do que a de toda a população mundial: 39.000kg por segundo. Cerca de 80% das áreas cultiváveis são usadas para a criação de animais. Em um hectare de terra podem ser plantados 22.500kg (vinte e dois mil e quinhentos quilos) de batatas, mas, na mesma área, só podem ser produzidos 185kg (cento e oitenta e cinco quilos) de carne bovina.
A pecuária, alardeada como a menina dos olhos da exportação brasileira, é uma das produções maiores consumidoras de água. São necessários até 30.000L (trinta mil litros) de água para produzir 1kg (um quilo) de carne, mas apenas 150 (cento e cinqüenta) litros de água para 1kg (um quilo) de trigo. Ainda segundo a TAPS, a produção de um único hambúrguer consome uma quantidade de água suficiente para 17 (dezessete) banhos de chuveiro e a criação desses animais de corte seria responsável por 90% (noventa por cento) do desmatamento das florestas tropicais.
É um custo muito alto a ser pago pelo consumo de um alimento que pode ser substituído por outros alimentos. Não se trata de abolir seu consumo, mas é fato que faz parte da cultura brasileira consumi-lo em grandes quantidades e campanhas como a do SIC – Serviço de Informação da Carne - estimulam ainda mais seu consumo. O governo deve liderar o alerta a população não só sobre os malefícios de consumir carne em excesso, mas também do custo ambiental dessa prática. E isso deve ser feito o quanto antes, já que o consumo de carne no Brasil bate recordes a cada ano.
O vencedor do prêmio Nobel da Paz, Rajendra Pachauri, presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), disse, em entrevista recente ao jornal “O Estado de São Paulo” que não custa muito caro tomar medidas para evitar as mudanças climáticas, mas alertou que o modelo de desenvolvimento precisa ser revisto por completo, já que o modelo utilizado pelos países ricos nas últimas décadas não funcionou em termos ambientais e isso será sentido por décadas.
O cientista afirmou que Brasil, Índia e China não podem continuar a cometer os mesmos erros e devem encontrar tecnologias e padrões que garantam um desenvolvimento sustentável para sua população. Segundo Pachauri, os custos não são tão grandes quando propagados e os países emergentes têm acesso a tecnologia necessária, sendo falacioso o argumento de que milhões de pessoas perderiam seus empregos se exigências ambientais forem colocadas.
Ainda segundo Pachauri, o mundo precisaria de menos de 1% (um por cento) do PIB mundial por ano para atacar os problemas e países como o Brasil precisariam de cerca de 3% (três por cento). Alerta, ainda, que na América Latina a produção de grãos pode cair em 30% (trinta por cento) até 2080, índice que na África chega a 50% (cinqüenta por cento) até o ano de 2020. O racionamento de água, que hoje afeta 12 milhões de latino-americanos, pode chegar a 81 milhões em 2020. Por isso, é urgente que se analise quais são as opções mais eficientes e que não gerariam tantas perdas à economia, para redefinir a estratégia de desenvolvimento nos países emergentes.
O governo também deveria investir mais no descarte de produtos perigosos. Segundo dados da ABINEE - Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica são produzidas anualmente no Brasil cerca de 800 milhões de pilhas. Uma simples pilha, geralmente contém zinco, chumbo e manganês, metais pesados altamente prejudiciais à saúde humana, além de outras substâncias poluidoras como cádmio, cloreto de amônia e mercúrio, no caso das alcalinas, substâncias altamente tóxicas. Se utilizadas normalmente não apresentam perigo, mas se jogadas no lixo comum chegam aos aterros sanitários, onde se rompem e atingem lençóis freáticos, córregos e rios cuja água pode ser usada para abastecimento ou para irrigar produtos agrícolas.
Como o consumo de produtos que utilizam pilhas e baterias cresce a cada ano, chegando a números impressionantes como a compra de um celular novo a cada 17 (dezessete) meses por pessoa, nos parece óbvio que uma política ambiental séria voltada ao descarte de baterias e pilhas deve ser levada adiante e o consumo desmedido desse produtos deva ser combatido.
O governo vem pressionando os fabricantes de pilhas desde a década passada, o que trouxe alguns progressos, ainda que tímidos. Essas empresas adaptaram e melhoraram seus produtos, reduzindo significativamente a quantidade de metais perigosos, mas as exigências do CONAMA - Conselho Nacional do Meio Ambiente, materializadas nas Resoluções 257/99 e 263/99 ainda são insuficientes, permitindo quantidades razoáveis de metais tóxicos nos produtos e proibindo-os de lançar estes resíduos “in natura” a céu aberto, mas permitindo o descarte junto ao lixo doméstico, em aterros sanitários licenciados que como vimos, não são seguros. O governo ignora que a maior parte dos municípios do país não têm aterro sanitário e que a maioria dos resíduos são lançados no meio ambiente sem controle adequado.
Talvez a solução seja atacar o próprio consumo desmedido, promovendo e incentivando a educação do brasileiro para consumir melhor e com consciência. O problema social do consumo desenfreado afeta diretamente o meio ambiente e reflete na qualidade de vida da própria população, sobretudo a de baixa renda. Os número mais recentes levantados pelo Provar – Programa de Administração do Varejo - e do FIA/USP- Fundação Instituto de Administração da Universidade de São Paulo atestam que entre os consumidores de baixa renda, quase 60% (sessenta por cento) estão endividados, motivados pelo crédito fácil que financia compras que não podem fazer, em parcelas que não podem pagar.
Mais boa vontade, menos corrupção e maior proteção contra os lobbys das grandes empresas devem ser preocupação freqüente daqui para frente. Desestimular o consumo desenfreado e induzir os consumidores a pensarem mais antes de comprar devem estar na pauta do dia. Em última instância, o governo não pode ter medo de parecer culpado por um eventual desaquecimento da economia e soar impopular, deve sim procurar informar o consumidor de quais empresas ou produtos são ambientalmente mais corretos do que outros e a partir daí deixar que o consumidor faça sua escolha.
O que você pode fazer para ajudar?
Com tantos problemas e tamanha a complexidade da questão, fica claro que não é razoável apenas esperar do governo que tome todas as medidas necessárias e continuar vivendo como antes, sem antes alterar significativamente seus hábitos de consumo.
Como vimos, o problema do armazenamento do lixo, poluição da água e contaminação do meio ambiente como um todo, deflagrados pelo consumo desenfreado e é muito sério, mas enquanto estudiosos e especialistas não encontram uma saída razoável para a crise, cada um de nós pode e deve ajudar começando pelo mais simples: parar de produzir tanto lixo. Não, não é preciso abrir mão de todo e qualquer consumo, tornando-se um eremita enclausurado numa caverna e vivendo de sopa e grãos. Pequenos hábitos podem fazer a diferença.
A começar pela água, um pouco de atenção no tempo do banho é uma das medidas mais apontadas na cartilhas de consumo sustentável e não é à toa: a média brasileira de consumo de água, segundo a SABESP, é de mais de 200 litros/dia, quase o dobro do necessário. Não é questão de se tomar um banho relâmpago todos os dias, com pressa ou com medo. Basta utilizar-se do banho como instrumento de pura e simples higiene, no menor tempo possível e criando o hábito de desligar o chuveiro enquanto se ensaboa e só ligá-lo para retirar o sabão. Aos fins de semana, por que não, a pessoa pode relaxar um pouco mais e usufruir de um banho por alguns minutinhos a mais. A economia feita durante a semana já vai ajudar e muito.
Se você cultiva plantas, prefira as que necessitam de pouca água como cactos, violetas e bromélias, regando apenas quando necessário e somente na base, pois as folhas não precisam de água. Aproveite toda a água da chuva que puder, armazenando-a em recipientes que podem ser improvisados nas calhas ou no quintal, tomando o cuidado de tampar esses recipientes para evitar propagação de mosquitos que transmitem doenças como a dengue, por exemplo.
Criar o hábito de varrer a calçada em vez de lavá-la também é um hábito saudável. Depois de afastar a sujeita, use a água armazenada da chuva para tirar a poeira, que também pode ser utilizada para lavar o carro. E ao fazê-lo, prefira baldes em vez da mangueira. Consertar vazamentos em casa, fechar a torneira enquanto escova os dentes ou faz a barba e ter mais cuidado ao sujar a louça, economizando água na hora de lavá-la, são boas práticas que dão um pouco de trabalho no começo, mas que se tornam automáticas com o tempo.
Nunca é demais lembrar que latas de alumínio, vidro e papéis podem e devem ser reciclados. A comunidade científica ainda não se decidiu se é mais custoso ambientalmente falando reciclar um material ou produzir um novo, mas nos parece óbvio que o problema do lixo é tão grande que a reciclagem é fundamental enquanto a dúvida persiste. Faça já sua adesão ao sistema de coleta seletiva em sua cidade e incorpore o hábito de separar o lixo.
Ao mesmo tempo, sabe-se que ainda não é economicamente atrativo para as empresas reciclarem tudo que podem, então a ordem do dia é evitar ao máximo produzir lixo e isso não é difícil. Copos descartáveis para água e café são uma constante no comércio e nas empresas, mas podem e devem ser evitados no ambiente de trabalho. Enquanto são boa uma solução higiênica para locais públicos, se você fica sentado em sua mesa o dia todo, pode levar uma caneca de casa e utilizá-la no lugar dos copos. Economizará em média oito copos por dia, quarenta por semana, cento e sessenta por mês e quase dois mil copos por ano. É muita coisa.
Em seu deslocamento diário, tente descobrir se o transporte público da sua região é realmente tão ruim quanto parece. Tente caminhos, vias e veículos alternativos, pois eles economizam seu tempo e seu dinheiro, poupando também o meio-ambiente. Se puder fazer parte do trajeto a pé, faça. Você faz exercícios e ao mesmo tempo economiza com tratamentos médicos e alimentos light.
No supermercado, ponha a mão na consciência e adquira apenas aquilo que precisa. Prefira produtos com menor quantidade de embalagens, leve uma sacola de feira ou peça uma caixa de papelão para carregar as compras. Não compre alimentos em excesso, nem cozinhe em demasia para depois jogar no lixo. Prefira alimentos não-transgênicos, pois estes não contaminam lavouras, possuem menos agrotóxicos na composição e oferecem menos riscos á saúde.
No shopping-center, pense antes de gastar cada centavo em produtos que de que não precisa realmente. Não é preciso ter o celular da moda, o computador mais novo, o carro de último tipo, um monte de calçados e roupas novas estocados em casa. Use os produtos até que não lhe sirvam mais, deixando de trocá-los apenas porque saíram de moda ou porque surgiram outros mais modernos.
A economia de energia elétrica também é importante, pois o consumo de água em hidroelétricas, termoelétricas e até em empresas também é muito grande, especialmente naquelas que a utilizam para resfriar equipamentos. Shopping-centers, hipermercados, luzes de Natal e outros tantos fatos da modernidade aumentaram muito o consumo e desperdício. A sua parte pode ser feita diminuindo o consumo residencial e comercial, o que representará economia em sua conta-corrente e melhorias para a sociedade como um todo.
Para tanto, procure só acender a luz se realmente precisar dela, já que durante o dia, normalmente a luz do dia já é suficiente para boa parte das atividades. Procure também desligar a iluminação quando sair de algum ambiente e lembrar seus familiares e colegas de trabalho de fazer o mesmo. Construa sua casa privilegiando a luz natural.
Você também pode fazer a sua parte deixando de fazer downloads de músicas que não vai ouvir e de programas que não vai usar, deixando o micro-computador desligado por mais tempo. Não compre cds virgens quando pode utilizar seu mp3 player e desligue as caixas de música e a impressora quando não as estiver usando. Antes de imprimir, reflita se é realmente necessário, procurando utilizar sempre os dois lados da folha de papel e aproveitando o refugo primeiro para rascunho, depois para reciclagem.
Se tiver máquina de lavar roupas, prefira lavar tudo de uma vez, o que economiza água e energia. Use sabão apenas na medida certa, evitando enxágües desnecessários. Utilize o sabão que sobrar para ajudar na limpeza do quintal. Passe a maior quantidade de roupas possível de uma vez, para não ter de re-aquecer o ferro de passar o tempo todo. Prefira o gás ao micro-ondas, que só deve ser usado quando for estritamente necessário, diminua a potência do chuveiro no verão e tire da tomada seus televisores, dvd-players e outros eletrodomésticos que não utilizará na próxima meia-hora.
Ao adquirir lâmpadas, prefira lâmpadas fluorescentes e compactas para locais que ficam iluminados por longo tempo, como a cozinha ou a garagem. Apesar de mais caros, esses produtos consumem menos energia e duram mais tempo. O mesmo raciocínio deve ser feito ao adquirir equipamentos como televisores, aparelhos de som e equipamentos de ar-condicionado, que informam o consumo médio de energia na embalagem ou no manual de instruções. Geralmente chamam a atenção do consumidor quando possuem dispositivos que diminuam o consumo, como temporizadores no caso de televisores e controles automáticos de temperatura no caso de aparelhos de ar condicionado.
Outra boa prática é comprar apenas produtos certificados, por exemplo, com o selo PROCEL de eficiência energética, que tem por objetivo orientar o consumidor no ato da compra, indicando os produtos que apresentam os melhores níveis de eficiência energética dentro de cada categoria. Se você é comerciante, síndico de um condomínio ou empresário, uma boa disca de gestão inteligente e ecologicamente correta é consultar as Tabelas de Eficiência Energética do Inmetro antes de adquirir seus equipamentos. Consumir de forma responsável também faz parte do dia a dia das empresas e pode contribuir para manter uma boa imagem no mercado e economizar dinheiro.
Saber usar bem o ar-condicionado em qualquer ambiente também é relevante para a economia de energia. Um aparelho certificado e bem regulado só será realmente relevante para a economia de energia se for bem utilizado. E utilizar bem significa só ligá-lo quando necessário, manter portas e janelas fechadas durante a utilização e regular o termostato apenas na medida da necessidade. O mesmo raciocínio vale para aquecedores.
Por fim, jamais jogue lâmpadas, pilhas, baterias de celular, restos de tinta ou produtos químicos diretamente no lixo. Se você mora na Cidade de São Paulo (SP), acesse o site da prefeitura para obter informações sobre a coleta seletiva. Se você é de outra cidade, consulte o governo municipal local sobre o assunto e se descobrir que não há um programa nesse sentido, pressione a administração local para que estude o assunto. Se você se sentir sozinho ou impotente, junte-se a uma associação local (ou uma ONG) como as que estão indicadas no fim deste artigo.
Outra alternativa é buscar endereços de cooperativas em sua cidade que recolham material potencialmente poluidor como lâmpadas, pilhas, baterias, embalagens longa-vida, óleo, metal, pneu, lixo orgânico e eletrônicos em geral, consultando o site do Cempre - Compromisso Empresarial para a Reciclagem. Há vários outros sites na internet, como o do Sindico.com.br que trazem informações atualizadas sobre postos de coleta em todo o Brasil e empresas como a Rede Pão de Açúcar que também fazem esse trabalho. Se houver condições, espelhar-se em exemplos como o do Condomínio Conjunto Nacional, em São Paulo, que criou um departamento para cuidar apenas dessa questão, também é uma excelente idéia.
Nunca é demais lembrar que materiais como vidro, plástico, latas de alumínio, papel, papelão e material orgânico, em locais que contam com coleta seletiva de lixo, devem ser separados e acondicionados em recipientes próprios. Mas nem tudo pode ser reciclado: etiquetas adesivas, papel carbono, papel plastificado, fita crepe, papel de fax, papel metalizado, papéis sujos de alimentos e guardanapos, tomadas, cabos de panela, poliéster, náilon, cerâmica, porcelana, tubos de TV, clips e esponjas de aço, em geral, ainda não podem ser reciclados e podem ser descartados no lixo comum.
Informe-se em sua cidade se existe esse tipo de serviço ou se existem cooperativas na região que possam suprir a demanda. Da mesma forma, caso não exista o serviço ou se ele for insuficiente, cobrar iniciativas e novos projetos de vereadores e prefeitos também faz parte do seu papel de consumidor consciente.
E como bom cidadão, repasse todas essas informações para amigos, parentes e colegas de trabalho, pois com certeza se um ou dois incorporarem apenas alguns dos hábitos sugeridos neste artigo você já terá colaborado de forma verdadeiramente relevante para um mundo melhor. Discuta, reflita e faça de sua rotina um trabalho pelo meio-ambiente, não desanimando ao se deparar com dilemas morais ou com as prováveis dificuldades que surgirão, pois só o tempo e a persistência podem vencer a rotina e a preguiça.
Ambiente Brasil – Guia de Boas Práticas para o Consumo Sustentável
Guia de Consumo Sustentável do Ministério do Meio Ambiente
IDEC - Especial Consumo Sustentável
Portal do Voluntariado – Consumo Sustentável
ONGs, expertise e o mercado do desenvolvimento sustentável
ONGs, associações e sites relacionados
Instituto Biosfera – Conservação e Desenvolvimento Sustentável
CFGV - Centro de Estudos em Sustentabilidade
Inmetro
Consciencia
Akatu.net
IDEC
Consumer Reports
Brasilcon - Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor
Consumers International
Inmetro
Sabesp
Portal do Consumidor
Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor - Ministério da Justiça
Fórum Nacional das Entidades Civis de Defesa do Consumido